Conto- A casa da ilusão
Meu sonho desmoronou. As coisas são difíceis neste mundo. O silêncio é o mais cruel dos opressores. Minha melancolia é finda só quando a carne extingue. Sinto a dor de ser perdido no oceano dos pensamentos.
O caminho é árduo e danoso. Quando o sol voltar a sair talvez eu esteja morto. Quem poderá dizer? Só o tempo com sua fábrica de cadáveres. Em que momento perdi a direção. Não sei. Realmente não sei. As coisas são assim. E quem poderá enxergar o velho pássaro da esperança? No céu azul da crença... caminhei por um silêncio denso e opressor.
A noite caia vagarosamente e uma estranha melancolia se apossou de mim. A dor no peito queimava e os sonhos voavam em minha mente. Vi formas na escuridão reinante e uma sombra cheia de dentes afiados sorriu para mim. Senti um calafrio percorrer a espinha.
Caminhei pela estrada de terra batida. Os pés nus descalços e as mãos úmidas de preguiça e sono. Vi mais fantasmas horripilantes e um sorriso recebeu uma suave fagulha da lua.
Enxerguei ao longe uma casa grande e bonita ricamente entalhada numa montanha de pedra cor de grés. As portas pareciam ter aproximadamente três metros de altura e eram negras como piche. Um pássaro de um branco fantasmagórico voou rente ao meu rosto parou num pau de uma cerca de arame farpado e lentamente começou a salmodiar uma doce canção que dizia assim:
A vida veleja em oceanos turbulentos.
A noite envolve com seu escuro manto.
Ouço o grito atroz dos sentimentos
E o abismo triste chorar de tanto encanto.
Minha melancolia feroz me contamina
Um sonho secreto aos poucos brota.
Viajo numa dolorosa vertigem que anima
E a paisagem calma da vida desbota.
Sou ave triste que minera sonhos virgens
Sou nau ébria que no mar verde navega.
Extraio do incognoscível as diversas origens
De uma irrefreável vontade, divina e cega.
Vou catando pedaços de céu num vão desmaio
Ouço sinfonias mortas na orfandade.
A beira de dolorosos abismos quase caio
E morro no ninho da própria eternidade!
Quando a ave terminou de cantar fiquei sem reação, totalmente estupefato. Como uma ave noturna cantava um poema desses? Segui caminhando em direção a casa de portas negras.
Algo estranho no ar, como uma fragrância fervente e fantasmagórica. Meus queixos batiam de frio e a lua era um prato de louça na mesa negra do céu. Hesitei por alguns instantes e num átimo de segundo uma sombra fechou minha mente de encontro a pensamentos confusos.
Eu precisava me abrigar naquela noite fria. A casa era única naquele bucólico descampado de montanhas negras de dentes de pedra sombrios e ameaçadores. Resolvi me aproximar da imensa casa e fixei meus tímpanos naquele estranho silêncio. Se dentro da casa estranhos ruídos vinham como gritos abafados.
Era uma situação singular eu estava ouvindo algo peculiar ruídos talvez saídos de algum inferno imemorial. O que fazer? Resolvi bater na porta imensa e negra.
Bati na imensa porta e um calafrio percorreu minha espinha. Os sonhos eram diáfanos e estremeciam ao sopé das montanhas talhadas em negro. Repentinamente o portão negro se abriu e uma figura pequena e horrenda saiu.
Era um anão de pele negra com lábios disformes. Seus olhos brilhavam como jóias amaldiçoadas. Seus lábios eram duas linhas trêmulas e uma baba viscosa e vermelha corria pelos seus dentes podres. Então ele falou: "o que queres aqui?" respondi acuado: " sinto algo nesse lugar. O que é? ".
A coisa respondeu com resmungos e fez um sinal para mim entrar. Dei um passo para dentro da porta e um grito tripudiou o silêncio. Ao penetrar no recinto vi uma ampla sala que parecia maior do que eu via por fora. É como se eu tivesse entrado em outra dimensão.
Vi uma mesa com dois gigantes sentados fazendo queda de braço. Era meio surreal mas garanto que foi o que vi. E quando eles batiam o braço um do outro na mesa um estrondo se dava que as paredes vacilavam. Quando me aproximei sem acreditar no que via um deles fixou o olhar em mim. Era caolho e tinha os dentes de baixo pra fora dos beiços.
Era algo fora das dimensões do absurdo. Ele trovejou um grito e veio em minha direção. Numa voz gutural falou " mortais não podem entrar aqui. Aqui é a terra devastada dos malditos. Por que está aqui?" Respondi" tive uma noite dos diabos. Tudo está muito estranho desde que tive uma crise, os pássaros cantam poemas e gigantes fazem queda de braço. Pode me dizer que mundo é esse?"
Ele retrucou " aqui é Fifthar a Terra dos Loucos Errantes. Se está aqui é porque tem um motivo. Geralmente chegam aqui os que foram banidos de outros mundos. Vivemos nesse pequeno continente de pedra e mato. Aqui é onde viemos para curtir uma diversão com os outros." Ouvi aquela voz tonitruante cessar e caí em mim. Como eu podia estar nesta dimensão estranha? Logo eu que sempre fui correto?
Meus pensamentos naufragam num oceano confuso. Sinto as pernas tremerem e um suor frio na testa. Quando passo a mão percebo que tenho chifres. Meu deus! O que sou?
Algum pesadelo se apossou de minha vida. O que posso fazer diante de tudo o que vejo? Então naufrago no lodo da inconsciência. Realmente enlouqueci.
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