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Poema/ Velhos caminhos trançados

  1. Repisei velhos caminhos E falhei em encontrar as promessas. Ao assumir o viço da primavera  Rachei como neblina. As mãos esmolaram o sol E fiquei impedindo a malha de luz De supurar minhas pálpebras.  Reincidi na ferida  E acendi oceanos Nos poros cansados.  O amor prometeu o éden  E regurgitou um sorvo de treva. Ao refazer a morte a cenho carregado Auscultei a respiração do abismo E a noite arfou em meu sufocamento.  2. Arremedei tuas súplicas  E reparei no ardor que me aniquilava. Chovia em meu lábio e o sono me inebriava. Quando tudo desmoronou Me mantive na respiração desesperada  E afundei na fluidez. Espero um tempo que não virá  E sopro cinzas nos olhos da noite. Como suportar a pálpebra que espalha A lágrima que nunca existiu? Rever teu silêncio é resetar Tudo o que um dia houve. Me engolfei em tuas malhas Acovardado de tua respiração  No meu ouvido. O coração torturado  Nas algemas do amanhecer.  Arrastando m...

Conto/ A psicose onírica

  Sim eu estava perdido em pensamentos confusos. A vida estava perdida. Senti um desconforto sistémico. A dor de existir era algo atordoante.  Uma alma dolorida não compensa um sonho arruinado. Quando as monções do tempo me jogaram no abismo a sombra me engoliu. Senti um estranhamento. A voz de deus ecoou no silêncio. Uma mão negra me agarrou pelo colarinho.  Quando o sol esboçou luz na janela, acordei. Uma melancolia tomou conta de mim. Resisti ao sono e um lampejo me embriagou. As vozes eram atrozes. Um resquício de sanidade era turbulento.  As coisas pareciam pretas. Recorri a lembranças tortuosas. Levantei da cama e me aproximei com certo cuidado da janela. Como as coisas eram estranhas. A voz de deus ainda ecoava em minha carne. Sim a derradeira loucura.  A dolorosa e negra lembrança de uma voz no útero materno. Como pode ser assim. Como as coisas chegaram neste ponto. Sinto que as coisas se atracam umas com as outras. As lembranças brigam umas com as outra...

Conto/ O campanário do apocalipse-parte 4

Estava com sede e continuava em minha peregrinação a um rumo desconhecido. Parei num grande lago azul cercado por uma relva macia quando senti alguém se aproximar. Me virei puxando instintivamente minha arma e apontei para o rosto de uma  jovem de feições simétricas e doces. Ela se assustou e botou as mãos na frente do rosto num gesto de proteção. Então falei: "Fique parada aí!" Ela então respondeu hesitante. "Calma não atire! Sou humana e não estou infectada!" Então pasmo e ainda tenso pelo susto abaixei o cano da arma e perguntei: "Quem é você?" "Meu nome é Martia e estou perdida aqui neste inferno." Respondeu de maneira ofegante. Olhei de maneira desconfiada e então falei: "De onde você vêm?" "Venho do sul e estou fugindo dessas coisas que estão soltas por aí."    Ficamos um olhando para o outro sem pronunciar uma só palavra. No fundo eu estava muito apreensivo pois não sabia o que fazer e qual seria a resposta de por que a...

Conto- o campanário do apocalipse parte 3

  Depois de uma temporada de descanso estou novamente indo em direção a um final que desconheço. Minha alma está um pouco confusa com todos esses acontecimentos estranhos e ainda não sei o que pode acontecer.  Ouço estranhos grunhidos cada vez ficando mais fortes. Estou caminhando numa estrada devastada. Vejo carros incendiados e alguns corpos com focos de mortos vivos. Ao passar por essas trupes de carne putrefata; eles estão tão concentrados na carne que devoram que nem olham para mim.  Estou com uma arma que peguei num corpo que jazia no meio do caminho. Estou armado e pronto pra atirar no que aparecer na minha frente. Vejo que estamos vivendo um apocalipse zumbi. Coisas que só vi em filmes.  Não sei o que acontecerá mas minha intuição me diz para ir em direção dos grunhidos guturais. As sombras da noite se aproximam. Sinto a boca seca mas tenho um pouco de água no cantil dum kit de sobrevivência que achei. Vejo uma densa fumaça no horizonte. Não sei o que é mas s...

Conto- O campanário do apocalipse parte 2

Levantei sentindo um cheiro forte nas narinas. Um odor de carne queimada flutuando salvajemente pelo ar empesteado. Pensei em algo macabro por um milésimo de segundo.  Mas deixei os maus pensamentos dissolverem se na cabeça ainda um pouco atordoada. Caminhei devagarinho seguindo o curso do sol que se espreguiçava nos galhos ressequidos daquela paisagem apocalíptica.  É impressionante como a vida humana é frágil. Habitamos um planeta lindo, azul pálido visto do espaço, nau sublime que navega a escuridão veludosa do espaço. Às vezes a experiência humana é algo extremo. Vivemos nas bordas do desespero e a existência humana oscila entre os extremos do sofrimento e as duras penas de um tédio esmagador.  Eu penso tudo nisso enquanto caminho por uma estrada de terra nua onde no vejo um único vestígio de vida desde que deixei aquelas criaturas naquela igreja assombrada. Quero chegar em casa e acho que estou chegando perto. O sol já vai descendo o horizonte. Foi um dia inteiro de ...

Conto-O campanário do apocalipse parte 1

Estando perdido em pensamentos um dia me encontrei num campanário solitário. A vida parecia ter mudado de casa e o suor brotava em meu rosto. Eu estava parecendo um louco que procurava em seu mundo onírico algo que desse sentido a sua vida. Procurei buscar me situar pois até aquele momento eu estava ainda perdido em um mundo que não me pertencia.  Me aproximei do vitral quebrado daquele campanário que eu não sabia como tinha ido parar ali. Vi pelo vitral quebrado minha casa no horizonte distante. A casa rodeada de animais que na verdade pareciam porcos. Fiquei em êxtase com aquela visão do inferno. Eu estava num campanário de uma igreja abandonada. E a mente rasurada pois não lembrava como tinha ido parar ali. E ainda pra piorar enxergava seres imundos que pareciam porcos na minha casa que por um motivo que ignoro chafurdam no meu jardim. Eu só posso ter enlouquecido. Minha alma está em cacos. A noite se aproxima com suas cores doces de sombra densa. O sol agoniza em dor  e má...

Conto- A casa da ilusão

Meu sonho desmoronou. As coisas são difíceis neste mundo. O silêncio é o mais cruel dos opressores. Minha melancolia é finda só quando a carne extingue. Sinto a dor de ser perdido no oceano dos pensamentos. O caminho é árduo e danoso. Quando o sol voltar a sair talvez eu esteja morto. Quem poderá dizer? Só o tempo com sua fábrica de cadáveres. Em que momento perdi a direção. Não sei. Realmente não sei. As coisas são assim. E quem poderá enxergar o velho pássaro da esperança? No céu azul da crença...  caminhei por um silêncio denso e opressor. A noite caia vagarosamente e uma estranha melancolia se apossou de mim. A dor no peito queimava e os sonhos voavam em minha mente. Vi formas na escuridão reinante e uma sombra cheia de dentes afiados sorriu para mim. Senti um calafrio percorrer a espinha. Caminhei pela estrada de terra batida. Os pés nus descalços e as mãos úmidas de preguiça e sono. Vi mais fantasmas horripilantes e um sorriso recebeu uma suave fagulha da lua. Enxerguei ao lo...