Conto/ A psicose onírica
Sim eu estava perdido em pensamentos confusos. A vida estava perdida. Senti um desconforto sistémico. A dor de existir era algo atordoante.
Uma alma dolorida não compensa um sonho arruinado. Quando as monções do tempo me jogaram no abismo a sombra me engoliu. Senti um estranhamento. A voz de deus ecoou no silêncio. Uma mão negra me agarrou pelo colarinho.
Quando o sol esboçou luz na janela, acordei. Uma melancolia tomou conta de mim. Resisti ao sono e um lampejo me embriagou. As vozes eram atrozes. Um resquício de sanidade era turbulento.
As coisas pareciam pretas. Recorri a lembranças tortuosas. Levantei da cama e me aproximei com certo cuidado da janela. Como as coisas eram estranhas. A voz de deus ainda ecoava em minha carne. Sim a derradeira loucura.
A dolorosa e negra lembrança de uma voz no útero materno. Como pode ser assim. Como as coisas chegaram neste ponto. Sinto que as coisas se atracam umas com as outras. As lembranças brigam umas com as outras.
Estava no fundo do poço. O som do amor era ensurdecedor. Sim o amor era deveras intermitente. Aquiesci à insignificância. As dobras da carne estavam febris. As dores do tempo criaram raízes.
Como deter o avanço do tempo. Como reciclar a esperança perdida. A voz de deus ainda estava distante. No fundo do poço minha voz era um fiapo. O sol entrava na janela mas eu ainda estava confuso.
Como podem as coisas chegarem nesse nível de loucura e absurdo? A realidade se fragmenta. O vento ainda era uma lembrança. A infância fora algo fora do comum. Resquícios de um tempo referente.
Sim as raízes criam musgo. A ferida não cicatrizou e jamais irá. A melancolia dos brinquedos abandonados. A dor dos êxtases agora rasurados pela intempérie. A voz de um tempo totalmente perdido. A janela ainda estava distante.
Minhas mãos suavam. A alma não respondia. Vi o raio de sol na janela e tudo isso me soou falso. Tudo isso me ocorreu devido a um raio de sol na janela. A luz ainda estava pálida pois era uma recém-nascida. Senti um aperto no peito e a lancinante sensação que as muralhas da minha consciência desmoronaram.
A voz não era mais ouvida e a escuridão se desbotava cada vez mais. Um sopro suave vinha debaixo da porta. Era como uma brisa suave numa noite de verão. Afinal o que está acontecendo? Tem algo de errado neste delírio. Este amanhecer está me deixando louco.
O que fiz ontem a noite? Estou com a mente nebulosa. Só agora percebo que desde que o sol começou a nascer ou terminou de nascer, estou nesse estado catatônico. Minha surpresa é só perceber isso agora.
Me afasto da janela e vou até a porta. O vento ainda vem debaixo da porta. Pego na maçaneta reluzente e abro-a. A como é densa essa escuridão aconchegante!
Por um instante mergulho na escuridão como um golfinho numa piscina. Delírios sufocam tudo o que sou. Um turbilhão me leva para lugares assombrados. Uma melancolia opressiva me inebria e um suor frio me cobre o rosto e os membros.
Parece um pesadelo mas é a mais pura realidade. Este estado de cansaço me incomoda bastante. Uma alma aflita sussurra na tempestade. Sinto calafrios no escuro gelado. Uma mão repentinamente me agarra.
Sinto-me puxado de uma vez só e emerjo da escuridão tal qual uma ilha vulcânica. Recebi uma carta da tempestade. Abri a para ler e reencontrei minha infância. O que são estes delírios? O que ocorre neste instante.
Algo relacionado a um tempo que não mais existe. Depois do turbilhão e da tempestade tudo fica calmo. Desperto numa praia deserta. Sinto a areia morna em meu corpo. Caminho até a água com dificuldade para lavar o rosto. Tenho que me restabelecer.
Preciso voltar para casa com urgência. Tenho mulher e filho me esperando. Mas algo me diz que ainda vai demorar para vê los. Este lugar é estranho. Tento lembrar como cheguei naquele quarto e naquela janela iluminada e embriagada de sol. Meus miolos estão fritando.
O dia amanheceu e desperto num cômodo escuro. Minha cabeça ainda está confusa de certa forma depois deste último surto psicótico. Onde estive e que espécie de lugar era aquele?
Me levanto e vou até a cozinha de maneira que meus passos ecoam no silêncio reinante. Estes surtos me incomodam muito pois tenho estranhos apagões e de repente acordou num lugar que desconheço. Depois tenho que descobrir como fui parar no lugar onde acordo.
Agora estou aqui neste cômodo. Vejo prateleiras empoeiradas e sinto um frio de sepulcro no ar do entorno. Tem uma aura de mistério isso aqui. Como se fosse de uma sacralidade violada. Minha mente ainda está confusa mas aos poucos vou recuperando meu raciocínio lógico. As sombras são de tonalidades sombrias de um azul turquesa que respira as tonalidades do envelhecimento.
Tenho flashbacks de memória. Me vou para uma parte de meu passado onde tudo era mais verde. As luzes eram mais brilhantes e uma aura de esperança grassava o ar. A alma não estava alquebrada mas sim dormia o sono da inocência.
Ver é como sentir só que imerso na dor dos sentidos. Existem mundos inabitados onde a luz dos fantasmas inocula medo nos deuses e nos homens. A alma alcança esferas onde até os anjos temem chegar. Ser e não ser não faz sentido nestes lugares. Penso que é onde estive.
É muito estranho este lugar. Esta sala de paredes parece até a casa abandonada de algum deus. Estou pensando que deve existir alguém que more aqui. Mas quem seria? Bom devo esperar pra ver. Enquanto isso o que farei? Bom vou até a prateleira e pego um livro. É de poesia e então abro ao acaso. Leio um poema que é assim:
Minha alma dorme nos ventos
A dor de existir me mata
A voz viola o firmamento
Do deus de cabelos de prata.
Neste sombra de mistério
Não podes ver o que existe
Pois repousará no cemitério
Aquele que sempre será triste.
Quando este verso estiver
Perdido no seu pensamento
Encontrarás a derradeira mulher
Com a morte dos sentimentos.
E então sepultado serás
Na maré de pedra do tempo.
E na vida não mais existirá
E o que foste se perderá no vento...
Terminei de ler e fiquei pensando nestas frases e sua incoerência infernal. Mas o que isto quer dizer? Medito novamente em cada verso e um tremor de calafrio me exalta. Como perscrutar os fundamentos últimos de uma realidade tão ilusória?
Estarei fadado a nadar nas águas escuras da loucura? Não tenho esta resposta. Mas persevero na minha esperança e aguardo a cartada derradeira do destino. As sombras estão mais tristes. Um relatório feito em ferrugem guarda as mais estranhas lembranças.
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