Conto- A dança da guerra
Ele é um guerreiro sobre a luz da lua. A vida era um sonho ceifado. Seu nome é Theftém. É um vate guerreiro. Um bardo de espada em punho. A lua prateada o amaldiçoou com o sono dos loucos. Ele caminha numa rua deserta onde casas velhas se espalham.
Sua consciência é algo triste pois ele lembra de fatos que o levaram a esse momento. Sua alma é um sonho distinto ardendo na febre da escuridão.
Ele caminha num rumo que desconhece. Ele vê as ruas sujas e os mendigos imersos na reza redentora de uma vida desesperada. Ele passa para olhar o céu que jaz como um paciente anestesiado. Ele sangra. Sua alma também. Ele pensa na mulher e filho ceifados e sua alma ainda lembra com melancolia dos bons momentos. Ele cumprimenta o abismo para depois se jogar nele. Theftten carrega correntes de ferro nos passos e cambaleia em sua loucura.
Ele afugenta os fantasmas com uma tosse crônica. Sua pele cheia de pústulas lhe coça sofregamente. Ele caminha para um fim que desconhece. Sua alma, fiapos estendidos para secar lágrimas nos varais do abismo. Ele sabe que vai dormir e ter pesadelos. Sua noite vai ser longa, mas ele precisa tocar sua lira e manejar sua espada.
Esse reino de caos que se instaurou com a morte do rei Mhoani e a coroação de seu filho bastardo Rhestruor foram catastróficos e jogaram a cidade no abismo mais profundo do descaso e da miséria.
Sua alma chora por ter um ditador mandando num reino que outrora era próspero. Ainda mais um homem sanguinário e sem escrúpulos. Os habitantes ainda sofrem os efeitos de uma peste.
A dor de todos se espelha em seus olhos. Outrora matador de dragões e feras do inferno. Agora Theften é um joguete de sua própria doença. Perdido em seus devaneios e de suas sombras íntimas assombrado por memórias de um futuro incerto.
Ele desperta com o clangor da batalha. Suas sombras se esfalfam engalfinhadas num brutal massacre. Vê dois homens duelando num jardim ao lado. Ele olha estupefato pois são dois homens e um deles é coxo. Não tem chance. Ele vê que é um combate injusto. Uma mulher parada chorando.
Eles batalham por ela. Sua alma em pedaços olhando. Sofrimento morte e guerra. Teria sobrado espaço para a beleza e a poesia? Theftém então resolve tocar sua lira e uma música dolorosamente envolvente se evola pelo ar como fumaça de incenso nas igrejas assombradas do reino dos mortos. Sua mágica é envolvente e dá à quem ouve o êxtase dos anjos.
Os homens que brigavam com facas nas mãos começam a fazer pequenos movimentos estranhos. Eles começam a fazer estranhas simetrias com os braços e os pés começam a dar passos dentro da harmonia da música. Até o coxo entrava simetricamente no ritmo com movimentos suaves e harmoniosos.
Seus corpos respondem ao som melodioso e uma excêntrica dança se ensaia. Tudo vibra num estranho excitamento e uma embriaguez homérica de gestos e movimentos acompanha toda a cena enquanto Theften toca sua lira qual um Orfeu redivivo.
Os homens que a poucos segundos queriam um tirar a vida do outro, agora dançam como bailarinos profissionais enlevados pelo dom de uma música extasiante.
Theften cumpriu sua missão como poeta de batalhas. Sua alma inebriada solidificou-se nesse momento. A lua banhava a cena com gotas pálidas de fagulhas leitosas. E o universo sorriu em sua ociosidade reinante celebrando a dança de uma batalha ensaiada.
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